Na Miminho aos Avós, há uma conversa que decidimos parar de adiar.
Não é uma conversa confortável. Fala de coisas que acontecem todos os dias no apoio domiciliário e que toda a gente prefere não nomear — relatos de discriminação, racismo disfarçado de preferência, xenofobia que ninguém assume, mas que está lá, nas chamadas das famílias, nos silêncios que se instalam quando o assunto surge. Durante anos, o setor varreu isto para debaixo do tapete. Compreendo porquê. Mas ignorar uma realidade não a resolve. Apenas a deixa crescer sem enquadramento.
A realidade é simples de descrever: hoje, a grande maioria das Ajudantes Familiares que entram nas casas dos nossos clientes têm percursos migratórios, histórias e formas de estar no mundo diferentes das pessoas que apoiam. Isso não é um problema — é a expressão de uma transformação social que Portugal vive e que chegou também ao SAD. O problema aparece quando essa realidade não é reconhecida, acompanhada e tratada com seriedade.
Na Miminho aos Avós, entendemos o SAD como apoio à vida em casa. Não como um conjunto de tarefas básicas — mas como a presença que permite a uma pessoa continuar a viver no seu ambiente, com segurança, autonomia, companhia, estimulação e dignidade. Quando o apoio acontece dentro da casa de alguém, acontece dentro da sua biografia. E isso muda tudo.
Foi esta consciência — aliada ao estudo que desenvolvi no IP Leiria em Sociologia das Migrações, Gerontologia, Educação Social e Culturas, Identidades e Mediação — que nos levou a construir uma política interna de interculturalidade para a Miminho aos Avós. Esta série nasce desse trabalho.
Não é um manual. Não é uma campanha. É uma tentativa honesta de meter o dedo numa ferida real — com método, sem intenção de ofender, mas também sem intenção de poupar ninguém. Incluindo o setor em que trabalhamos.
Ao longo de seis artigos, vamos explorar a interculturalidade no apoio à vida em casa:
1. A dignidade tem dois lados
2. Comunicação e competência intercultural
3. Reciprocidade e aprendizagem mútua
4. Ética, dignidade e responsabilidade institucional
5. Inclusão, não discriminação e coesão social — ODS 16
6. Sustentabilidade social e governação — ESG/SFDR
Pode não concordar com tudo o que vamos escrever. Esperamos que não concorde com tudo — porque se concordar com tudo, é sinal de que não metemos o dedo suficientemente fundo.
O que esperamos mesmo é que, ao fim dos seis artigos, fique com a certeza de que este é um tema que merece ser discutido. Com seriedade. Com método. E com a coragem de o nomear.
Sobretudo quando é desconfortável.
Rui Francisco
CEO da Miminho aos Avós Licenciado em Educação Social