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Ninguém envelhece bem sozinho

Nas visitas que faço, há uma pergunta que raramente é feita em voz alta, mas está quase sempre presente: quem já não está. Fala-se de amigos que morreram, de vizinhos que foram viver para casa dos filhos, de colegas que um dia deixaram de ligar sem que ninguém soubesse bem porquê. É raro ouvir falar de quem continua a aparecer.

A morte de um amigo leva mais do que uma pessoa. Leva também um pedaço de história partilhada que já ninguém confirma da mesma maneira. Essa é uma perda que não podemos evitar. Mas há relações que terminam de outra forma: não por conflito, mas por adiamento.

A mensagem que fica por responder. O almoço que passa para a semana seguinte. O telefonema adiado para quando houver mais tempo. E há sempre uma razão legítima: os filhos, o trabalho, o cansaço, uma mudança de casa, um problema que ninguém via chegar.

Entre os quarenta e os sessenta anos, isto pode passar despercebido. Os dias parecem cheios. Há mensagens, encontros combinados, pessoas com quem nos cruzamos por causa do trabalho, dos filhos ou do lugar onde vivemos. Mas essa agenda cheia engana: nem todos esses contextos vão durar. Só mais tarde percebemos o que era circunstancial e de que relações continuámos realmente a cuidar.

A solidão raramente começa no dia em que alguém fica sozinho. Começa muito antes, nos convites recusados por cansaço, nas conversas adiadas para nunca, nas amizades que julgámos garantidas só porque um dia foram fortes.

Não é por mal, nem de propósito. É a vida a acontecer — e é nesses mesmos anos que as relações se constroem ou se perdem, enquanto ainda parece haver sempre tempo para lhes dar lugar.

E estar acompanhado não é o mesmo que pertencer. Conheço pessoas cercadas de gente e, ainda assim, sem ninguém a quem contar o que realmente sentem. Recebem visitas e não são ouvidas. Têm quem trate delas e não têm quem as procure apenas porque tem vontade de as ver.

As relações sustentam-nos porque nos reconhecem: há alguém que repara na nossa ausência, pede a nossa opinião, espera a nossa chegada. Mas sustentam-nos também porque nos deixam continuar a dar. Acompanhar uma preocupação, partilhar uma memória, oferecer atenção, ser procurado por aquilo que somos — e não apenas assistido por aquilo de que precisamos.

Envelhecer bem acompanhado não é ter gente por perto. É continuar a receber e a dar, a precisar e a fazer falta.

Não podemos obrigar nenhuma relação a durar. As pessoas mudam, afastam-se, seguem outros caminhos. Mas podemos deixar de viver como se os vínculos importantes não precisassem de cuidado só porque um dia foram fortes.

A pergunta não é só quem estará ao nosso lado quando formos mais velhos. É a quem estamos hoje a dar lugar, enquanto a vida acontece.

São também essas relações que nos fazem sair, conversar e permanecer ligados ao mundo. Mas continuamos a habitá-lo através de um corpo que começa a preparar-se muito antes de falhar.

Rui Francisco · Educador Social

Publicado no Diário de Leiria
Reprodução da versão impressa do artigo

Ninguém envelhece bem sozinho

 

20 anos a cuidar de idosos em casa. Apoio Domiciliário de confiança em Portugal

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