No meu trabalho encontro pessoas que passaram a vida a gerir empresas, tomar decisões e resolver problemas. Quando a fragilidade lhes retira subitamente esse lugar, tento perceber o que ainda lhes desperta interesse. Por vezes, quase todas as propostas encontram resistência. Um jogo, uma conversa, uma recordação. Só a música parece, durante algum tempo, conseguir abrir uma pequena brecha.
O que observo não se resolve apenas acrescentando estímulos. Há um vazio que os jogos, as conversas ou a simples ocupação do tempo não conseguem preencher.
O problema se torne mais visível em quem passou a vida a decidir, resolver e produzir. Durante décadas, soube sempre o que fazer no dia seguinte — até ao momento em que o dia seguinte deixou de precisar de si.
Mas ter atividades não é o mesmo que ter propósito.
Uma atividade ocupa uma hora. O propósito dá uma razão para atravessar o dia. Não precisa de ser uma grande missão. Pode estar em cuidar de alguma coisa, acompanhar o crescimento de alguém, continuar a aprender, pertencer a um lugar ou saber que ainda existe algo para fazer amanhã.
Durante grande parte da vida, confundimos propósito com utilidade. Sentimo-nos necessários porque trabalhamos, resolvemos, sustentamos e produzimos. A profissão responde à pergunta “o que faço?” e, sem darmos conta, deixamos que responda também à pergunta “quem sou?”.
Quando o trabalho termina, os filhos já não precisam da mesma forma e o corpo começa a impor limites, não desaparecem apenas tarefas. Podem desaparecer as coordenadas através das quais a pessoa se reconhecia.
A mente não envelhece apenas quando começa a esquecer. Envelhece também quando deixa de esperar alguma coisa da vida.
Essa capacidade de esperar, desejar e imaginar futuro não se improvisa quando a fragilidade chega. Constrói-se muito antes, na curiosidade que preservamos, nos interesses que cultivamos, nos vínculos que não deixamos morrer e numa identidade que não dependa exclusivamente daquilo que produzimos.
Aprendemos a preparar o que é previsível e mensurável. Poucos nos ensinaram a construir uma razão para querer o amanhã.
Talvez por isso a pergunta deva ser feita enquanto ainda incomoda e ainda há tempo para responder: se hoje nos retirassem o trabalho, as obrigações e as pessoas que dependem de nós, o que restaria que ainda nos fizesse desejar amanhã?
Há futuros que não se perdem na velhice. Perdem-se muito antes, nos anos em que ainda podíamos ter começado a construí-los.
Por vezes, uma música ainda consegue interromper o silêncio. Mas até esse pequeno movimento precisa de alguém que o reconheça, o partilhe e volte no dia seguinte.
Talvez a vontade de amanhã não seja uma construção inteiramente individual.
Rui Francisco · Educador Social
Publicado no Diário de Leiria
Reprodução da versão impressa do artigo
